{"id":22898,"date":"2026-03-21T06:34:36","date_gmt":"2026-03-21T09:34:36","guid":{"rendered":"https:\/\/csimaster.com\/noticia2025\/terapia-virou-papo-de-bar-por-que-saude-mental-nunca-foi-tao-pop\/"},"modified":"2026-03-21T06:34:42","modified_gmt":"2026-03-21T09:34:42","slug":"terapia-virou-papo-de-bar-por-que-saude-mental-nunca-foi-tao-pop","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/csimaster.com\/noticia2025\/terapia-virou-papo-de-bar-por-que-saude-mental-nunca-foi-tao-pop\/","title":{"rendered":"Terapia virou papo de bar: por que sa\u00fade mental nunca foi t\u00e3o pop"},"content":{"rendered":"<div data-single-content=\"true\">\n<p>Ao que parece, as conversas de mesa de bar mudaram. Entre um petisco e outro, termos como \u201c<strong>gatilho<\/strong>\u201d, \u201c<strong>trauma<\/strong>\u201d, \u201c<strong>limites<\/strong>\u201d e \u201c<strong>responsabilidade afetiva<\/strong>\u201d come\u00e7aram a surgir com naturalidade.<\/p>\n<p>A sa\u00fade mental, antes restrita aos consult\u00f3rios m\u00e9dicos, virou tema de rodas de amigos, conte\u00fado nas redes sociais e, em muitos casos, virou at\u00e9 identidade. Mas o fen\u00f4meno, embora positivo em v\u00e1rios aspectos, tamb\u00e9m acende alertas.<\/p>\n<p>Para entender esse movimento, a <strong>CNN Brasil<\/strong>\u00a0conversou com <strong>Jair Soares dos Santos<\/strong>, psic\u00f3logo, fundador do Instituto Brasileiro de Forma\u00e7\u00e3o de Terapeutas (IBFT) e doutorando em Psicologia pela Universidade de Flores (UFLO), na Argentina.<\/p>\n<p>Ele explica por que a terapia est\u00e1 t\u00e3o popular, quais s\u00e3o os riscos da \u201cestetiza\u00e7\u00e3o\u201d do sofrimento e como a <strong>Terapia de Reprocessamento Generativo (TRG)<\/strong> interpreta essa nova forma de lidar com as emo\u00e7\u00f5es no mundo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<h2>Quando a sa\u00fade mental vira trend<\/h2>\n<p>Somente no TikTok, a hashtag #saudemental ultrapassa as 2 milh\u00f5es de visualiza\u00e7\u00f5es. Para Jair, o grande boom da terapia tem um efeito social essencial: reduz estigmas e amplia o acesso a uma linguagem emocional que, por muito tempo, foi elitizada ou silenciada. \u201cA populariza\u00e7\u00e3o da terapia traz um ganho enorme: aproxima as pessoas de recursos de cuidado interno e oferece linguagem emocional acess\u00edvel\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Mas a transforma\u00e7\u00e3o da sa\u00fade mental em tend\u00eancia tamb\u00e9m pode trazer distor\u00e7\u00f5es. Segundo o especialista, quando o sofrimento vira um produto cultural, o risco \u00e9 esvaziar conceitos cl\u00ednicos importantes. Termos que deveriam carregar profundidade emocional \u2014 como \u201ctrauma\u201d ou \u201cgatilho\u201d \u2014 passam a ser usados de forma gen\u00e9rica.<\/p>\n<p>\u201cA terapia n\u00e3o \u00e9 uma est\u00e9tica, \u00e9 um compromisso com transforma\u00e7\u00e3o profunda\u201d, explica. Para a TRG, o perigo est\u00e1 justamente na \u201cperformance emocional\u201d: quando o indiv\u00edduo fala sobre dor sem realmente entrar em contato com ela. Falar e elaborar, diz o psic\u00f3logo, s\u00e3o coisas bem diferentes.<\/p>\n<h2>Por que estamos nos abrindo tanto e em qualquer lugar?<\/h2>\n<p>A cena para muitos j\u00e1 \u00e9 comum: algu\u00e9m desabafa no bar aquilo que jamais diria em um consult\u00f3rio. Para Jair, isso acontece porque os c\u00f3digos sociais mudaram. Ambientes informais criam sensa\u00e7\u00e3o de horizontalidade. Diante disso, ningu\u00e9m \u00e9 especialista, mas todo mundo gosta de aconselhar.<\/p>\n<p>\u201cEm contextos assim, a revela\u00e7\u00e3o n\u00e3o surge pela busca de cura, mas pela busca de pertencimento. A fragilidade cria v\u00ednculo\u201d, explica.<\/p>\n<p>O profissional faz um alerta: o que se compartilha nesses espa\u00e7os costuma ser uma \u201cvulnerabilidade narrada, n\u00e3o processada\u201d. Fala-se da hist\u00f3ria, mas n\u00e3o se acessa o que ficou gravado no corpo e no sistema emocional.<\/p>\n<p>Conforme a sua explica\u00e7\u00e3o, a TRG reconhece o valor humano desse tipo de troca, que diminui a sensa\u00e7\u00e3o de solid\u00e3o interna, mas refor\u00e7a que isso n\u00e3o substitui o trabalho terap\u00eautico. Conversar conecta, mas a terapia transforma.<\/p>\n<h2>Os mitos do autocuidado pop<\/h2>\n<p>O <strong>autocuidado<\/strong>, para muitos, virou um mantra. Mas, como lembra Jair, grande parte do discurso atual romantiza o processo. \u201cUm dos equ\u00edvocos mais comuns \u00e9 achar que autocuidado \u00e9 sempre leve e agrad\u00e1vel\u201d, afirma. Na pr\u00e1tica, cuidar de si envolve desconforto, como revisitar mem\u00f3rias, identificar padr\u00f5es, romper v\u00ednculos, admitir autoenganos e estabelecer limites dolorosos.<\/p>\n<p>Outro mito \u00e9 o da <strong>autossufici\u00eancia<\/strong>. O psic\u00f3logo explica que muitas dores s\u00e3o relacionais por origem (surgiram em v\u00ednculos) e, por isso, n\u00e3o podem ser completamente elaboradas sozinhas. O suporte t\u00e9cnico \u00e9 necess\u00e1rio quando a pr\u00f3pria mente cria defesas para evitar o n\u00facleo da dor.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m a confus\u00e3o entre autocuidado e fuga. \u201cEvitar o que d\u00f3i n\u00e3o \u00e9 cuidado, \u00e9 anestesia\u201d, diz. O caminho da TRG \u00e9 o oposto: olhar diretamente para o que marcou o sistema emocional, para que a dor possa, enfim, se reorganizar.<\/p>\n<h2>Da vida real ao conte\u00fado: a emo\u00e7\u00e3o como identidade<\/h2>\n<p>Outro fen\u00f4meno contempor\u00e2neo chama aten\u00e7\u00e3o: a<strong> transforma\u00e7\u00e3o da vida emocional em conte\u00fado<\/strong>. Desabafos viram posts e relatos viram v\u00eddeos. Para Jair, isso acontece porque a emo\u00e7\u00e3o se torna uma forma de organizar identidade: quem sofreu se apresenta como sobrevivente, quem venceu dores, como resiliente. \u201cA narrativa vira persona\u201d, explica.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 um risco: cristalizar-se no papel da pr\u00f3pria ferida. Para o especialista, a TRG diferencia expressar emo\u00e7\u00e3o de estar preso a ela. Mesmo quando a dor \u00e9 verbalizada publicamente, isso n\u00e3o significa que foi elaborada internamente. \u201cN\u00e3o \u00e9 a audi\u00eancia que cura, mas sim o contato \u00edntimo consigo mesmo\u201d, afirma.<\/p>\n<p>A necessidade de testemunho, por\u00e9m, \u00e9 leg\u00edtima. O ser humano n\u00e3o quer sofrer sozinho. O desafio, segundo Jair, \u00e9 que essa valida\u00e7\u00e3o venha menos do externo e mais da pr\u00f3pria reorganiza\u00e7\u00e3o emocional.<\/p>\n<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao que parece, as conversas de mesa de bar mudaram. 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