{"id":16550,"date":"2025-05-13T07:32:24","date_gmt":"2025-05-13T10:32:24","guid":{"rendered":"https:\/\/csimaster.com\/noticia2025\/mortalidade-por-cancer-de-mama-e-de-colo-do-utero-cresce-no-brasil\/"},"modified":"2025-05-13T07:32:35","modified_gmt":"2025-05-13T10:32:35","slug":"mortalidade-por-cancer-de-mama-e-de-colo-do-utero-cresce-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/csimaster.com\/noticia2025\/mortalidade-por-cancer-de-mama-e-de-colo-do-utero-cresce-no-brasil\/","title":{"rendered":"Mortalidade por c\u00e2ncer de mama e de colo do \u00fatero cresce no Brasil"},"content":{"rendered":"<div>\n<p>Mococa \u00e9 uma cidadezinha tranquila e acolhedora no norte do estado de S\u00e3o Paulo onde o tempo passa devagar. Distante 260 quil\u00f4metros da capital, o munic\u00edpio com 67 mil habitantes tornou-se pioneiro em um importante programa de sa\u00fade p\u00fablica no final de abril. Come\u00e7ou a funcionar em duas de suas 13 unidades b\u00e1sicas de sa\u00fade (UBS) um sistema informatizado que muda completamente a forma em vigor no Brasil de rastrear os tumores de mama e de colo do \u00fatero.<\/p>\n<p>Em vez de aguardar que as mulheres procurem o servi\u00e7o p\u00fablico de sa\u00fade para uma consulta e, s\u00f3 ent\u00e3o, sejam encaminhadas por m\u00e9dicos para os exames ginecol\u00f3gicos preventivos, funcion\u00e1rios dessas UBS ir\u00e3o encontr\u00e1-las. Com o aux\u00edlio de um programa de computador que cruza dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade com os do munic\u00edpio, eles identificar\u00e3o as moradoras na faixa et\u00e1ria de maior risco para esses dois c\u00e2nceres e as convidar\u00e3o para, no momento adequado, fazer tanto a mamografia, uma radiografia especializada que busca altera\u00e7\u00f5es e n\u00f3dulos nas mamas, quanto o exame de Papanicolau, que permite identificar les\u00f5es iniciais no colo do \u00fatero. As equipes de sa\u00fade tamb\u00e9m realizar\u00e3o o acompanhamento posterior das mulheres que precisarem passar por exames de confirma\u00e7\u00e3o de diagn\u00f3stico e tratamento.<\/p>\n<p>O objetivo dessa altera\u00e7\u00e3o de procedimento \u00e9 n\u00e3o deixar escapar tumores que possam ser tratados e reduzir o intervalo entre a identifica\u00e7\u00e3o do c\u00e2ncer e o come\u00e7o da terapia. Assim, espera-se iniciar a revers\u00e3o de um quadro que vem se delineando em S\u00e3o Paulo e no restante do pa\u00eds nos \u00faltimos anos: o aumento da mortalidade por c\u00e2ncer de mama e de colo do \u00fatero, em especial entre as mulheres mais jovens, com menos de 40 anos.<\/p>\n<p>\u201cA implanta\u00e7\u00e3o-piloto nas duas UBS de Mococa \u00e9 um teste em mundo real do rastreamento organizado. Ela nos permitir\u00e1 ver os problemas que surgem e realizar os ajustes e os refinamentos necess\u00e1rios antes de ampliar a sua implementa\u00e7\u00e3o para as outras unidades do munic\u00edpio e, nos pr\u00f3ximos meses, as de outras regi\u00f5es do estado\u201d, explica o m\u00e9dico sanitarista Victor W\u00fcnsch Filho, da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da Universidade de S\u00e3o Paulo (FSP-USP) e diretor-presidente da Funda\u00e7\u00e3o Oncocentro de S\u00e3o Paulo (Fosp), a institui\u00e7\u00e3o que coordena os programas de rastreamento dos c\u00e2nceres de mama e de colo do \u00fatero no estado.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns anos, W\u00fcnsch e sua equipe na Fosp come\u00e7aram a notar que o sistema de detec\u00e7\u00e3o precoce dos tumores de mama e colo do \u00fatero adotado em S\u00e3o Paulo e nos outros estados, baseado na abordagem oportunista, estaria deixando de produzir o efeito desejado e decidiram agir. Com apoio de pesquisadores de tr\u00eas universidades paulistas e da Ag\u00eancia Internacional para Pesquisa sobre o C\u00e2ncer da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (Iarc-OMS), o grupo formulou um programa para mudar a estrat\u00e9gia de rastreamento de passiva para ativa \u2013 o ConeCta-SP, financiado pela FAPESP e Secretaria de Estado da Sa\u00fade \u2013 e come\u00e7ou a coloc\u00e1-lo em pr\u00e1tica em 2022.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, os especialistas da Fosp entrevistaram 437 mulheres e 400 profissionais da sa\u00fade de 50 UBS do estado a fim de identificar as barreiras para a realiza\u00e7\u00e3o dos exames de rastreamento. Tamb\u00e9m iniciaram oficinas com gestores dos 17 departamentos regionais de sa\u00fade e dos munic\u00edpios para ajud\u00e1-los a reorganizar o sistema e a implementar as mudan\u00e7as. Como avan\u00e7o mais recente, em 24 de abril, come\u00e7ou a funcionar em Mococa, ainda de modo experimental, a plataforma de inform\u00e1tica que auxilia na identifica\u00e7\u00e3o das mulheres que devem fazer os exames ginecol\u00f3gicos preventivos. A previs\u00e3o \u00e9 que at\u00e9 o final de junho ela entre em opera\u00e7\u00e3o nas UBS de outros 19 munic\u00edpios da regi\u00e3o e, antes de setembro, nas de mais dois departamentos regionais de sa\u00fade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Mudar a forma de levar as mulheres para os exames preventivos e acompanh\u00e1-las mais de perto ap\u00f3s o diagn\u00f3stico \u00e9 um esfor\u00e7o para alterar a trajet\u00f3ria das mortes por esses c\u00e2nceres no pa\u00eds, que poderia \u2013 e at\u00e9 deveria \u2013 estar diferente. Em S\u00e3o Paulo, depois de um importante per\u00edodo de queda, cuja extens\u00e3o varia segundo o tipo de c\u00e2ncer, a taxa de mortalidade por tumores de mama e de colo do \u00fatero voltou a crescer. Cerca de tr\u00eas anos atr\u00e1s, os pesquisadores da Fosp identificaram uma inflex\u00e3o nas curvas de \u00f3bito do estado a partir de 2015 (<em>ver<\/em> Pesquisa FAPESP <em>n\u00ba 320<\/em>) e, mais recentemente, come\u00e7aram a se acumular evid\u00eancias de que o mesmo fen\u00f4meno parece ocorrer em todo o pa\u00eds e pode ter se iniciado at\u00e9 mesmo mais cedo.<\/p>\n<p>Em um artigo publicado em janeiro na revista <em>BMC Cancer<\/em>, os oncologistas Jess\u00e9 Lopes da Silva e Andreia de Melo e o epidemiologista Luiz Claudio Thuler, todos do Instituto Nacional de C\u00e2ncer (Inca), no Rio de Janeiro, avaliaram a evolu\u00e7\u00e3o da taxa de mortalidade por c\u00e2ncer de mama no pa\u00eds de 2000 a 2021. O c\u00e2ncer de mama \u00e9 a segunda neoplasia mais comum em mulheres no Brasil (perde apenas para o c\u00e2ncer de pele n\u00e3o melanoma) e a que mais mata. Neste ano, s\u00e3o esperados 73,6 mil novos casos de neoplasias de mama e 18 mil mortes.<\/p>\n<p>Os dados do Sistema de Informa\u00e7\u00f5es sobre Mortalidade (SIM) do Departamento de Inform\u00e1tica em Sa\u00fade do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (DataSUS) obtidos pelos pesquisadores indicam que, nos 22 anos analisados, a taxa de mortes diretamente decorrentes de tumores de mama cresceu de modo praticamente cont\u00ednuo no pa\u00eds. Passou de 10,5 \u00f3bitos a cada 100 mil mulheres em 2000 para 11,8 por 100 mil em 2021. Esse aumento ocorreu apesar de a taxa de incid\u00eancia (n\u00famero de casos novos por ano) ter permanecido est\u00e1vel. Na realidade, a incid\u00eancia caiu ligeiramente para a popula\u00e7\u00e3o geral, com uma redu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o foi significativa do ponto de vista estat\u00edstico, e cresceu entre as mulheres com menos de 40 anos.<\/p>\n<p>\u201cSe a incid\u00eancia geral n\u00e3o mudou, era esperado que a mortalidade permanecesse constante ou diminu\u00edsse, uma vez que h\u00e1 no pa\u00eds um programa de rastreamento destinado a identificar os tumores de mama precocemente, em um est\u00e1gio em que s\u00e3o trat\u00e1veis com mais sucesso\u201d, conta Thuler. A Lei n\u00ba 11.664, de 2008, assegurou a realiza\u00e7\u00e3o gratuita de mamografia para todas as mulheres com mais de 40 anos usu\u00e1rias do SUS. Uma portaria de 2015 do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade restringiu o exame para a faixa et\u00e1ria entre os 50 anos e os 69 anos, o que foi mantido pela Lei n\u00ba 14.335, de 2022. \u201cNos pa\u00edses desenvolvidos, apesar de a incid\u00eancia se encontrar em ascens\u00e3o, a mortalidade vem caindo porque, neles, o rastreamento funciona bem e leva ao tratamento nos est\u00e1gios iniciais, quando a taxa de cura \u00e9 mais elevada\u201d, afirma o epidemiologista. \u201cNo Brasil, estamos na contram\u00e3o do que \u00e9 desej\u00e1vel.\u201d<\/p>\n<p>No estudo da <em>BMC Cancer<\/em>, Silva, Thuler e De Melo notaram tamb\u00e9m que o ritmo de aumento da mortalidade foi mais acelerado entre as mais jovens. Ele cresceu, em m\u00e9dia, \u00e0 raz\u00e3o de 1,8% ao ano entre as mulheres com menos de 40 anos, enquanto esse avan\u00e7o ocorreu em velocidade tr\u00eas vezes mais baixa (0,6% ao ano) na faixa dos 50 aos 69 anos e duas vezes menor (0,9% ao ano) entre aquelas com mais de 70. Efeito semelhante foi observado pela equipe da epidemiologista Miranda Benoudia, da Universidade de Calgary, no Canad\u00e1. Em um artigo na <em>Nature Medicine<\/em>, o grupo comparou a evolu\u00e7\u00e3o da taxa de mortalidade por c\u00e2ncer de mama em 46 pa\u00edses e constatou que o Brasil era um dos sete em que ela aumentou entre 2008 e 2015, de modo mais acentuado entre as mulheres com menos de 50 anos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 no pa\u00eds uma disparidade \u00e9tnica associada ao c\u00e2ncer de mama. Em outra an\u00e1lise, Silva, Thuler e colaboradores compararam a evolu\u00e7\u00e3o da taxa de mortalidade entre brancas e negras de 2000 a 2020 e constataram que ela cresceu a um ritmo quase quatro vezes maior no \u00faltimo grupo em rela\u00e7\u00e3o ao primeiro. A taxa de mortalidade aumentou, em m\u00e9dia, \u00e0 velocidade de 0,6% ao ano entre as brancas e de 2,3% entre as negras, embora os tumores de mama fossem mais frequentes em mulheres brancas (havia 101 casos para cada 100 mil) do que nas negras (60 para cada 100 mil), segundo resultados publicados em 2024 na <em>Breast Cancer Research and Treatment<\/em>. \u201cDe modo geral, as mulheres negras t\u00eam n\u00edvel educacional mais baixo, vivem em regi\u00f5es mais pobres e enfrentam mais barreiras de acesso ao diagn\u00f3stico e ao tratamento\u201d, relata Silva.<\/p>\n<p>\u201cIdentificar e tratar o c\u00e2ncer de mama em mulheres jovens \u00e9 um desafio\u201d, afirma a oncologista Maria Del Pilar Estevez Diz, da Faculdade de Medicina da USP (FM-USP) e diretora do corpo cl\u00ednico do Instituto do C\u00e2ncer do Estado de S\u00e3o Paulo (Icesp), o maior hospital oncol\u00f3gico do pa\u00eds. Segundo a especialista, que n\u00e3o participou dos estudos de mortalidade, as raz\u00f5es s\u00e3o v\u00e1rias. Uma \u00e9 que as mulheres com menos de 50 anos n\u00e3o integram o p\u00fablico-alvo dos programas de rastreamento do setor p\u00fablico de sa\u00fade, que atende cerca de 75% da popula\u00e7\u00e3o brasileira, restringindo o acesso a mamografias preventivas. Al\u00e9m disso, elas t\u00eam a mama mais densa, com mais tecido produtor de leite e menos gordura, o que dificulta a visualiza\u00e7\u00e3o de altera\u00e7\u00f5es na mamografia. Nessa faixa et\u00e1ria, tamb\u00e9m s\u00e3o mais frequentes os c\u00e2nceres mais agressivos, que evoluem mais rapidamente. \u201cOs m\u00e9dicos precisam estar atentos e valorizar a queixa dessas pacientes, pensando na possibilidade de c\u00e2ncer\u201d, conta.<\/p>\n<p>Seja na mama ou em outras partes do corpo, o c\u00e2ncer \u00e9 uma doen\u00e7a que ocorre com mais frequ\u00eancia \u00e0 medida que se envelhece. Com os anos, as c\u00e9lulas perdem a capacidade de corrigir eventuais erros que surgem no material gen\u00e9tico durante a divis\u00e3o celular ou em consequ\u00eancia da exposi\u00e7\u00e3o a fatores ambientais carcinog\u00eanicos, como a luz solar, bebidas alco\u00f3licas, tabaco ou poluentes. Como resultado, elas passam a se multiplicar de maneira desenfreada, originando o c\u00e2ncer.<\/p>\n<p>\u201cEm 80% a 90% dos casos, o c\u00e2ncer surge espontaneamente, pelo ac\u00famulo de defeitos no DNA ao longo da vida\u201d, explica a oncologista especializada em gen\u00e9tica Maria Aparecida Koike Folgueira, tamb\u00e9m professora da FM-USP e pesquisadora do Icesp. \u201cA parcela restante \u00e9 de origem heredit\u00e1ria. A pessoa herda dos pais genes com altera\u00e7\u00f5es que favorecem o desenvolvimento do c\u00e2ncer.\u201d Esse parece ser o caso de uma parte importante dos tumores de mama que ocorrem em mulheres mais jovens.<\/p>\n<p>Em um estudo coordenado por Folgueira, o oncologista Rodrigo Santa Cruz Guindalini analisou o perfil gen\u00e9tico do tumor de mama de 1.663 mulheres de todas as regi\u00f5es do Brasil. Dessas, 335 (20%) apresentavam tumores decorrentes de altera\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas de origem heredit\u00e1ria, segundo artigo publicado em 2022 na revista <em>Scientific Reports<\/em>. Entre as mais jovens, com menos de 35 anos, essa propor\u00e7\u00e3o, como era esperado, foi significativamente maior do ponto de vista estat\u00edstico: 25,8%. Os genes mais frequentemente alterados foram o <em>BRCA1<\/em>, o <em>BRCA2<\/em> e o <em>TP53<\/em>, que atuam no reparo de erros que surgem aleatoriamente no DNA.<\/p>\n<p>Mudan\u00e7a no padr\u00e3o de mortalidade semelhante \u00e0 observada para as neoplasias de mama tamb\u00e9m vem sendo registrada nos \u00faltimos anos no Brasil para o c\u00e2ncer de colo do \u00fatero, ou cervical. Esse \u00e9 o quarto tipo de c\u00e2ncer mais comum (quando se contabilizam os tumores de pele n\u00e3o melanoma) e o quarto mais letal. A estimativa \u00e9 que surjam 17 mil casos novos e ocorram 7 mil mortes no pa\u00eds em 2025. O Brasil se encontra em uma posi\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria \u00e0 de outras na\u00e7\u00f5es no que diz respeito \u00e0s taxas de incid\u00eancia e de mortalidade por 100 mil mulheres por c\u00e2ncer de colo de \u00fatero, algo que tamb\u00e9m se verifica com os tumores de mama.<\/p>\n<p>Os primeiros sinais de invers\u00e3o na tend\u00eancia de mortalidade foram percebidos pela equipe da Fosp e documentados em um artigo publicado em 2023 na <em>Revista de Sa\u00fade P\u00fablica<\/em>. No trabalho, a epidemiologista Carolina Luizaga analisou a evolu\u00e7\u00e3o da mortalidade por c\u00e2ncer de colo do \u00fatero no pa\u00eds de 1980 a 2020. Ao longo dessas quatro d\u00e9cadas, a propor\u00e7\u00e3o de mulheres que morrem por esse tipo de neoplasia em cada grupo de 100 mil diminuiu quase pela metade. Eram 10,1 em 1980 e 5,6 em 2020.<\/p>\n<p>Essa tend\u00eancia geral, no entanto, esconde contrastes importantes. Quando olhou para intervalos mais curtos, Luizaga constatou que, em n\u00edvel nacional, a taxa de mortalidade parou de cair em 2014 e, dali em diante, tornou-se est\u00e1vel, como publicado na <em>Revista de Sa\u00fade P\u00fablica<\/em>. O estado de S\u00e3o Paulo, por\u00e9m, destoou do padr\u00e3o nacional. Nele, a taxa de mortalidade por c\u00e2ncer de colo do \u00fatero passou a crescer a partir daquele ano ao ritmo de 1,2% ao ano.<\/p>\n<p>O efeito observado em S\u00e3o Paulo mostrou-se mais intenso e v\u00e1lido para todo o pa\u00eds quando a equipe da Fosp analisou as tend\u00eancias por faixa et\u00e1ria. Entre as mulheres mais jovens, com idade variando de 25 a 39 anos, a taxa de mortalidade deixou de cair e passou a aumentar a partir de 2007, \u00e0 velocidade de 2,5% ao ano. Esse efeito come\u00e7ou at\u00e9 um pouco mais cedo, em 2006, no Sudeste e ampliou sua magnitude (5% ao ano) a partir de 2013. \u201cOs dados deixam claro que essa invers\u00e3o de tend\u00eancia ocorre pelo aumento na taxa de mortalidade das mulheres jovens\u201d, conta Luizaga. O grupo da Fosp suspeita que comportamento semelhante tenha ocorrido com o c\u00e2ncer de mama, mas a an\u00e1lise dos dados coletados ainda n\u00e3o foi conclu\u00edda.<\/p>\n<p>O que Luizaga e colaboradores come\u00e7aram a notar anos atr\u00e1s para o c\u00e2ncer cervical foi, de certo modo, confirmado agora pela equipe da epidemiologista Tain\u00e1 Raiol, da Universidade de Bras\u00edlia (UnB) e da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz) na capital federal. Averiguando os dados nacionais para o per\u00edodo 2000-2021, Matheus Santos Melo, aluno de doutorado de Raiol, constatou que, de 2014 em diante, a taxa de mortalidade por neoplasias de colo do \u00fatero para de cair e passa a apresentar um aumento discreto. Novamente, o crescimento \u00e9 em boa parte atribu\u00eddo \u00e0s mais jovens. A mortalidade subiu para as mulheres com idade entre 20 e 29 anos ao longo de todo o per\u00edodo analisado e, a partir de 2011, para as faixas et\u00e1rias dos 30 aos 39 e dos 40 aos 49, segundo artigo publicado em outubro na revista <em>Scientific Reports<\/em>.<\/p>\n<p>\u201cEsses dados mostram que o Brasil est\u00e1 longe de alcan\u00e7ar a meta proposta em 2020 pela OMS de eliminar as mortes por c\u00e2ncer cervical como problema de sa\u00fade p\u00fablica. Para isso, seria preciso baixar o n\u00famero de casos novos por ano, a taxa de incid\u00eancia, para 4 casos em cada 100 mil mulheres. Hoje, essa taxa \u00e9 de 15,4 por 100 mil e a de mortalidade \u00e9 de 5,8 por 100 mil no pa\u00eds\u201d, lembra Melo.<\/p>\n<p>Enquanto o c\u00e2ncer de mama ocorre com mais frequ\u00eancia em regi\u00f5es e pa\u00edses ricos, associado \u00e0 obesidade, ao tabagismo, ao consumo de \u00e1lcool e ao sedentarismo, os tumores malignos de colo do \u00fatero s\u00e3o mais comuns em \u00e1reas pobres. Uma boa not\u00edcia \u00e9 que as neoplasias cervicais podem ser facilmente prevenidas por meio da vacina\u00e7\u00e3o. Em cerca de 98% dos casos, os tumores malignos de colo do \u00fatero surgem em consequ\u00eancia de infec\u00e7\u00e3o pelo v\u00edrus do papiloma humano, o HPV, contra o qual h\u00e1 imuniza\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel no SUS desde 2014. \u201cA vacina previne 90% dos casos desse c\u00e2ncer\u201d, conta o cirurgi\u00e3o Reitan Ribeiro, da Universidade McGill, no Canad\u00e1, e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncol\u00f3gica (SBCO). \u201cSe fosse gestor p\u00fablico, investiria todas as minhas fichas na imuniza\u00e7\u00e3o para eliminar o problema\u201d, afirma.<\/p>\n<p>A vacina\u00e7\u00e3o gera imunidade contra quatro variedades do v\u00edrus (duas associadas ao c\u00e2ncer e duas a verrugas genitais) e \u00e9 recomendada para meninas e meninos na faixa et\u00e1ria dos 9 aos 14 anos, quando a grande maioria ainda n\u00e3o iniciou a vida sexual. Em n\u00edvel populacional, por\u00e9m, seu efeito protetor se torna evidente depois de anos, uma vez que os tumores de colo do \u00fatero e outros c\u00e2nceres associados ao HPV evoluem lentamente. Em sua estrat\u00e9gia de elimina\u00e7\u00e3o do c\u00e2ncer de colo do \u00fatero, a OMS prop\u00f5e que 90% das meninas estejam vacinadas at\u00e9 os 15 anos. No Brasil, no entanto, a cobertura encontra-se abaixo disso nos \u00faltimos anos. Dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade indicam que ela havia alcan\u00e7ado toda a popula\u00e7\u00e3o-alvo nos primeiros anos, mas passou a cair a partir de 2017. No ano passado, 82,5% das garotas com idade entre 9 e 14 anos foram vacinadas.<\/p>\n<p>Ao menos por ora, no entanto, a queda da imuniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o explica o aumento recente da mortalidade. A justificativa mais plaus\u00edvel, v\u00e1lida tanto para o c\u00e2ncer de mama como para o de colo do \u00fatero, \u00e9 a falha no sistema de rastreamento e na oferta de terapias no tempo adequado. A Lei n\u00ba 12.732, de 2012, determina que a pessoa com c\u00e2ncer atendida no SUS receba o primeiro tratamento at\u00e9 60 dias depois da confirma\u00e7\u00e3o do diagn\u00f3stico. No caso dos tumores malignos de mama e colo do \u00fatero, no entanto, ela continua sendo largamente descumprida, apesar de melhora recente.<\/p>\n<p>Segundo dados do Painel Oncologia, do DataSUS, em 2024, 41% dos casos de c\u00e2ncer de mama come\u00e7aram a ser tratados ap\u00f3s o intervalo definido pela lei. No caso das neoplasias de colo do \u00fatero, a propor\u00e7\u00e3o que iniciou a terapia tardiamente foi ainda maior: 47,7%. Dois estudos dos quais participou a epidemiologista Marianna Cancela, do Inca, indicam haver uma grande disparidade regional. Para os tumores de mama, o atraso variou de 33% no Rio Grande do Sul a 57% no Acre, de acordo com artigo publicado em 2021 na <em>Scientific Reports<\/em>. No caso das neoplasias cervicais, segundo dados publicados em 2023 na revista <em>Ci\u00eancia &#038; Sa\u00fade Coletiva<\/em>, a propor\u00e7\u00e3o foi de 38% no Piau\u00ed e de 65% no Rio Grande do Norte.<\/p>\n<p>Uma consequ\u00eancia desses atrasos \u00e9 que, quando a paciente chega ao m\u00e9dico, o tumor em grande parte das vezes j\u00e1 se encontra em est\u00e1gio avan\u00e7ado de progress\u00e3o, o que exige terapias mais modernas, nem sempre dispon\u00edveis no SUS, e torna o tratamento menos eficaz, reduzindo a chance de cura. \u201cH\u00e1 uma diferen\u00e7a gritante entre as op\u00e7\u00f5es de terapia dispon\u00edveis no SUS e no sistema privado para os tumores avan\u00e7ados\u201d, conta a cirurgi\u00e3 Fabiana Makdissi, l\u00edder do Centro de Refer\u00eancia em Tumores de Mama do A.C. Camargo Cancer Center, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de falhas no rastreamento e na oferta de terapia por parte do sistema p\u00fablico de sa\u00fade, raz\u00f5es pessoais parecem contribuir para o atraso na identifica\u00e7\u00e3o e no tratamento desses c\u00e2nceres femininos. Em S\u00e3o Paulo, as 437 mulheres entrevistadas antes da implanta\u00e7\u00e3o do ConeCta-SP elencaram uma s\u00e9rie de motivos para a n\u00e3o realiza\u00e7\u00e3o dos exames preventivos no tempo adequado. Muitas tinham medo de encontrar algo errado ou sentiam constrangimento de fazer os exames, enquanto outras afirmavam n\u00e3o ter tempo ou achar desnecess\u00e1rio, uma vez que \u201cn\u00e3o estavam sentindo nada\u201d. Elas tamb\u00e9m relataram barreiras do sistema p\u00fablico, como dificuldade de agendar os exames e tempo de espera elevado.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, a expectativa \u00e9 que o quadro comece a mudar \u2013 e as taxas de mortalidade voltem a cair \u2013 com o avan\u00e7o da nova estrat\u00e9gia de rastreamento, acompanhada de campanhas de conscientiza\u00e7\u00e3o das mulheres e de ajustes na oferta dos tratamentos. O desafio \u00e9 fazer isso o mais r\u00e1pido poss\u00edvel e de modo efetivo para um universo de quase 15 milh\u00f5es de pessoas. No fim de 2022, Pernambuco iniciou um programa semelhante \u2013 o \u00datero \u00e9 Vida \u2013 que est\u00e1 reorganizando o sistema de sa\u00fade para fazer o monitoramento ativo do c\u00e2ncer de colo do \u00fatero. A previs\u00e3o \u00e9 acompanhar 370 mil pernambucanas na fase-piloto, ainda em implanta\u00e7\u00e3o. \u201cO rastreamento oportun\u00edstico funcionou at\u00e9 certo ponto. Depois, perdeu efetividade e deixou de ter impacto na mortalidade\u201d, afirma Luizaga, da Fosp. \u201cEst\u00e1 na hora de mudar.\u201d<\/p>\n<p>A reportagem acima foi publicada com o t\u00edtulo \u201c<strong>Perdas evit\u00e1veis<\/strong>\u201d na edi\u00e7\u00e3o impressa n\u00ba 351 de maio de 2025.<\/p>\n<p><em>*Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a  licen\u00e7a Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.<\/em><\/p>\n<blockquote data-secret=\"R8Ta6HXkeE\">\n<p>ANS: rastreio do c\u00e2ncer de mama deve ser feito a partir dos 40 anos<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mococa \u00e9 uma cidadezinha tranquila e acolhedora no norte do estado de S\u00e3o Paulo onde o tempo passa devagar. 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