{"id":16244,"date":"2025-05-10T07:32:21","date_gmt":"2025-05-10T10:32:21","guid":{"rendered":"https:\/\/csimaster.com\/noticia2025\/autolesao-jovens-relatam-estrategias-para-aliviar-sofrimento-mental\/"},"modified":"2025-05-10T07:32:28","modified_gmt":"2025-05-10T10:32:28","slug":"autolesao-jovens-relatam-estrategias-para-aliviar-sofrimento-mental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/csimaster.com\/noticia2025\/autolesao-jovens-relatam-estrategias-para-aliviar-sofrimento-mental\/","title":{"rendered":"Autoles\u00e3o: jovens relatam estrat\u00e9gias para aliviar sofrimento mental"},"content":{"rendered":"<div>\n<p>A adolesc\u00eancia \u00e9 uma fase de intensas transforma\u00e7\u00f5es emocionais e sociais, momento em que muitos jovens enfrentam desafios psicol\u00f3gicos significativos \u2013 entre eles o isolamento social e a autoles\u00e3o, pr\u00e1tica de ferir a si mesmo sem inten\u00e7\u00e3o suicida.<\/p>\n<p>Estima-se que um em cada sete adolescentes apresente sofrimento mental e que cerca de metade desses casos tem in\u00edcio antes dos 14 anos. Al\u00e9m disso, estima-se que 14% dos adolescentes j\u00e1 tenham se autolesionado pelo menos uma vez na vida, utilizando esse comportamento como uma tentativa de lidar com ang\u00fastias internas, como depress\u00e3o, ansiedade ou traumas.<\/p>\n<p>Esse tipo de comportamento n\u00e3o \u00e9 apenas um sintoma isolado, mas sim reflexo de um sofrimento profundo que impacta diretamente a qualidade de vida do jovem. A autoles\u00e3o pode afetar a autoestima, as rela\u00e7\u00f5es interpessoais e o desempenho escolar, al\u00e9m de aumentar o risco de suic\u00eddio. N\u00e3o \u00e0 toa, a sa\u00fade mental de adolescentes tem se tornado uma preocupa\u00e7\u00e3o global nos \u00faltimos anos no mundo todo, especialmente ap\u00f3s a pandemia de Covid-19. Estudos indicam que, durante a crise sanit\u00e1ria, os sintomas de depress\u00e3o aumentaram 26% e os de ansiedade cresceram cerca de 10% entre jovens de at\u00e9 19 anos. No Brasil, o n\u00famero de casos de autoles\u00e3o entre jovens aumentou 21% entre 2011 e 2022.<\/p>\n<p>Em 2018, antes da pandemia, a psic\u00f3loga Luiza Cesar Riani Costa, ent\u00e3o aluna da Universidade Federal de S\u00e3o Carlos (UFSCar), realizou um projeto de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica financiado pela Fapesp com o objetivo de compreender as quest\u00f5es relacionadas \u00e0 autoles\u00e3o n\u00e3o suicida entre jovens, ou seja, como adolescentes que vivenciavam essa experi\u00eancia conceituavam esse fen\u00f4meno e por que isso acontecia. Os resultados revelaram que os adolescentes viam a autoles\u00e3o como uma forma de aliviar o sofrimento emocional, destacando a import\u00e2ncia de um ambiente acolhedor para lidar com a dor ps\u00edquica.<\/p>\n<p>\u201cNa \u00e9poca, o fen\u00f4meno da autoles\u00e3o era relativamente novo no Brasil, mas ganhou destaque ap\u00f3s alguns desafios nas redes sociais incentivarem muitos adolescentes a se cortarem. Uma escola estadual de S\u00e3o Carlos, onde t\u00ednhamos projetos, notou o aumento de casos e nos incentivou a pesquisar o tema\u201d, conta a professora Diene Monique Carlos, que hoje atua na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), no campus de Ribeir\u00e3o Preto.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o trabalho de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, Costa deu continuidade aos estudos sobre autoles\u00e3o entre adolescentes durante seu mestrado na mesma universidade. Tamb\u00e9m financiado pela FAPESP, o estudo aprofundou o significado da pr\u00e1tica de autoles\u00e3o n\u00e3o suicida.<\/p>\n<p>Os achados da pesquisa se transformaram na cartilha <strong><em>O que alivia a minha dor: fotos e experi\u00eancias de adolescentes<\/em><\/strong>, que foi disponibilizada digitalmente para escolas, servi\u00e7os de sa\u00fade e profissionais que trabalham com adolesc\u00eancia. Al\u00e9m disso, a experi\u00eancia foi apresentada no 15\u00ba Congresso Ibero-Americano de Investiga\u00e7\u00e3o Qualitativa (CIAIQ2025), na Espanha, e <strong>publicada<\/strong> na <em>New Trends in Qualitative Research<\/em>.<\/p>\n<h2><strong>A origem da cartilha<\/strong><\/h2>\n<p>Para chegar ao desenvolvimento da cartilha, Costa iniciou uma pesquisa de abordagem qualitativa, ou seja, que n\u00e3o pressup\u00f5e uma grande quantidade de pessoas participando, j\u00e1 que o objetivo era aprofundar no entendimento do que estava acontecendo. Ao todo, foram avaliadas nove adolescentes entre 12 e 17 anos que estavam em sofrimento ps\u00edquico, tinham hist\u00f3rico de autoles\u00e3o e buscaram espontaneamente participar do projeto.<\/p>\n<p>Um dos pontos de destaque \u00e9 que todas as adolescentes eram do g\u00eanero feminino \u2013 uma coincid\u00eancia, j\u00e1 que meninos tamb\u00e9m foram convidados a participar, mas n\u00e3o manifestaram interesse. \u201cPercebemos uma forte quest\u00e3o de g\u00eanero presente, ent\u00e3o pensamos num outro projeto para olhar especialmente para os meninos. Por que eles n\u00e3o buscam ajuda?\u201d, detalhou a professora Diene Carlos, orientadora do projeto.<\/p>\n<p>Costa partiu da seguinte pergunta: \u201cO que alivia a sua dor?\u201d e pediu que as adolescentes respondessem \u00e0 quest\u00e3o por meio de fotografias feitas por elas mesmas, apresentando outras estrat\u00e9gias que usariam para passar por situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis e que lhes causam dor, desde que n\u00e3o fosse a autoles\u00e3o.<\/p>\n<p>Para isso, a pesquisa usou a metodologia Photovoice, t\u00e9cnica amplamente aplicada em contextos de vulnerabilidade, na qual imagens s\u00e3o usadas como forma de express\u00e3o para abordar temas delicados. \u201c\u00c9 uma metodologia muito usada por pesquisadores para situa\u00e7\u00f5es em que \u00e9 dif\u00edcil falar sobre determinado assunto\u201d, explica Carlos.<\/p>\n<p>As participantes tiveram duas semanas para fotografar cenas que respondiam \u00e0 quest\u00e3o \u2013 ao final do prazo, Costa recebeu 50 imagens. A ideia inicial era fazer a discuss\u00e3o das fotos em conjunto com as adolescentes, mas, devido \u00e0 pandemia, n\u00e3o foi poss\u00edvel (as entrevistas ocorreram entre os meses de marc\u0327o e julho de 2021). Por isso, a an\u00e1lise do material foi feita individualmente. As fotos serviram como ponto de partida para reflex\u00f5es mais profundas, guiadas por perguntas como: \u201cO que voc\u00ea v\u00ea nesta fotografia?\u201d, \u201cO que a motivou a tirar essa foto?\u201d, \u201cO que essa imagem desperta em voc\u00ea?\u201d e \u201cComo isso se relaciona com a autoles\u00e3o?\u201d.<\/p>\n<p>As imagens retratavam cenas na natureza, com animais de estima\u00e7\u00e3o, realiza\u00e7\u00e3o de atividades f\u00edsicas (como andar de skate ou de bicicleta), momentos de culin\u00e1ria, artes (com desenhos, m\u00fasicas, filmes), afeto e espiritualidade. Ap\u00f3s a realiza\u00e7\u00e3o de uma an\u00e1lise reflexiva, as pr\u00f3prias adolescentes apresentaram a ideia de constru\u00edrem conjuntamente uma cartilha em que elas pudessem divulgar as fotos e o que elas significavam como uma forma de chamar a aten\u00e7\u00e3o para o assunto e ajudar outros adolescentes que pudessem estar sofrendo tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>\u201cO contato com as meninas mostrou que o que estavam fazendo era mais complexo e profundo do que apenas criar estrat\u00e9gias de enfrentamento. Elas estavam mostrando de forma totalmente criativa o que as sustentava\u201d, escreveu a autora do estudo em uma carta ao leitor apresentada com a defesa p\u00fablica do mestrado.<\/p>\n<p>Segundo Carlos, ao analisar as fotografias produzidas pelas adolescentes, foi poss\u00edvel identificar elementos comuns entre elas, apesar das particularidades individuais: o foco na natureza, a import\u00e2ncia das rela\u00e7\u00f5es afetivas, a presen\u00e7a da fam\u00edlia, o carinho pelos animais, a m\u00fasica, os filmes e outras formas de express\u00e3o art\u00edstica. \u201cEncontramos muitas semelhan\u00e7as e similaridades entre as imagens e, por isso, conclu\u00edmos que isso tamb\u00e9m poderia fazer sentido para outros adolescentes. Para n\u00f3s, esse foi o momento mais bonito da pesquisa, j\u00e1 que a ideia original n\u00e3o era termos uma cartilha\u201d, conta a orientadora.<\/p>\n<p>A publica\u00e7\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel em portugu\u00eas e ingl\u00eas e tem potencial de ser uma importante ferramenta terap\u00eautica e educativa de baixo custo, especialmente por utilizar uma linguagem acess\u00edvel e coerente com o universo dos adolescentes. \u201cA autoles\u00e3o ainda est\u00e1 muito presente na vida desses jovens como uma forma de aliviar a dor e o sofrimento. Por isso esse instrumento pode ser usado para pensarmos outras possibilidades de al\u00edvio dessa dor\u201d, avalia Carlos.<\/p>\n<p>A cartilha <em>O que alivia a minha dor: fotos e experi\u00eancias de adolescentes<\/em> est\u00e1 acess\u00edvel no Reposit\u00f3rio Institucional da UFSCar e pode ser consultada em: <strong>repositorio.ufscar.br\/server\/api\/core\/bitstreams\/ddb95d76-9252-4e7d-90b8-96b0e805555a\/content<\/strong>.<\/p>\n<blockquote data-secret=\"inEajLsZzn\">\n<p>Metade dos adolescentes diz que redes sociais fazem mal \u00e0 sa\u00fade mental<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A adolesc\u00eancia \u00e9 uma fase de intensas transforma\u00e7\u00f5es emocionais e sociais, momento em que muitos jovens enfrentam desafios psicol\u00f3gicos significativos \u2013 entre&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":47,"featured_media":16245,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_lmt_disableupdate":"","_lmt_disable":"","footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-16244","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-saude"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/csimaster.com\/noticia2025\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16244","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/csimaster.com\/noticia2025\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/csimaster.com\/noticia2025\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/csimaster.com\/noticia2025\/wp-json\/wp\/v2\/users\/47"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/csimaster.com\/noticia2025\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16244"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/csimaster.com\/noticia2025\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16244\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/csimaster.com\/noticia2025\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16245"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/csimaster.com\/noticia2025\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16244"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/csimaster.com\/noticia2025\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16244"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/csimaster.com\/noticia2025\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16244"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}