{"id":16150,"date":"2025-05-09T07:32:52","date_gmt":"2025-05-09T10:32:52","guid":{"rendered":"https:\/\/csimaster.com\/noticia2025\/529-das-pessoas-com-hiv-no-brasil-ja-sofreram-discriminacao-diz-pesquisa\/"},"modified":"2025-05-09T07:33:02","modified_gmt":"2025-05-09T10:33:02","slug":"529-das-pessoas-com-hiv-no-brasil-ja-sofreram-discriminacao-diz-pesquisa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/csimaster.com\/noticia2025\/529-das-pessoas-com-hiv-no-brasil-ja-sofreram-discriminacao-diz-pesquisa\/","title":{"rendered":"52,9% das pessoas com HIV no Brasil j\u00e1 sofreram discrimina\u00e7\u00e3o, diz pesquisa"},"content":{"rendered":"<div>\n<p>No Brasil, 52,9% das pessoas que vivem com HIV j\u00e1 sofreram algum tipo de discrimina\u00e7\u00e3o por conta da condi\u00e7\u00e3o sorol\u00f3gica. \u00c9 o que revela pesquisa conduzida pela UNAIDS Brasil, e divulgada nesta quinta-feira (8), em Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>A principal experi\u00eancia de discrimina\u00e7\u00e3o vivenciada pelas pessoas participantes foi de coment\u00e1rios discriminat\u00f3rios e fofocas entre pessoas, tanto dentro de seu c\u00edrculo familiar (34,8%) quanto fora deste (38,8%). Al\u00e9m disso, 22,3% das pessoas que participaram da pesquisa foram exclu\u00eddas de atividades de pelo menos um dos espa\u00e7os que ocupavam (atividades sociais, familiares e\/ou religiosas).<\/p>\n<p>No \u00fanico levantamento anterior realizado no Brasil, divulgado em 2019, 64,1% dos participantes afirmaram j\u00e1 ter sofrido alguma forma de discrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Apesar de alguns avan\u00e7os registrados na pesquisa atual, o relat\u00f3rio lan\u00e7ado hoje afirma que o estigma e a discrimina\u00e7\u00e3o seguem como grandes barreiras no cotidiano das pessoas vivendo com HIV no Brasil. O estudo refor\u00e7a a urg\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas que assegurem o direito ao sigilo, promovam o acesso igualit\u00e1rio \u00e0 sa\u00fade e combatam o preconceito em todos os espa\u00e7os sociais.<\/p>\n<p>\u201cQuest\u00e3o de g\u00eanero, classe social, trabalho, cor, identidade e orienta\u00e7\u00e3o sexual ainda persistem. Para acabar com a AIDS, precisamos promover um pa\u00eds sem estigma e discrimina\u00e7\u00e3o \u2013 e o \u00cdndice de Estigma \u00e9 uma ferramenta que traz evid\u00eancias de como a discrimina\u00e7\u00e3o atua como uma barreira para acesso a servi\u00e7os\u201d, pontua Andrea Boccardi, diretora e representante do UNAIDS Brasil, Programa Conjunto das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre HIV\/AIDS.<\/p>\n<p>O levantamento, intitulado \u00cdndice de Estigma, ouviu 1.275 pessoas em sete capitais brasileiras \u2014 S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Porto Alegre, Recife, Bras\u00edlia e Manaus. Os autores do estudo argumentam que essas cidades representam a diversidade populacional e epidemiol\u00f3gica do pa\u00eds, tamb\u00e9m sendo os chamados \u201chotspots\u201d \u2014 \u00e1reas e localidades de maior incid\u00eancia de casos de AIDS ou de alta mortalidade.<\/p>\n<p>O \u00cdndice de Estigma \u00e9 uma ferramenta para detectar e medir a mudan\u00e7a de tend\u00eancias em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o relacionados ao HIV, a partir da perspectiva das pessoas vivendo com o v\u00edrus. Iniciado em 2008, o \u00cdndice \u00e9 uma iniciativa conjunta da Rede Global de Pessoas Vivendo com HIV (GNP+), Comunidade Internacional de Mulheres Vivendo com HIV\/AIDS (ICW), Federa\u00e7\u00e3o Internacional de Planejamento Familiar (IPPF), com apoio do Programa Conjunto das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre HIV\/AIDS (UNAIDS).<\/p>\n<p>No Brasil, a iniciativa \u00e9 do Cons\u00f3rcio de Redes de Pessoas que Vivem com HIV e AIDS, lideradas pela ONG Gestos, com parceria da PUC-RS e apoio da Secretaria-Geral da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica e do UNAIDS.<\/p>\n<h2>Consequ\u00eancias do estigma do HIV<\/h2>\n<p>Al\u00e9m de causar sofrimento, o preconceito prejudica a busca por tratamento. Dos entrevistados, 13,1% foram tratados de forma discriminat\u00f3ria em servi\u00e7os de sa\u00fade nos \u00faltimos 12 meses. As formas mais citadas de discrimina\u00e7\u00e3o foram atrav\u00e9s de coment\u00e1rios negativos e fofocas, minimiza\u00e7\u00e3o de contato f\u00edsico e a quebra de sigilo sobre seu diagn\u00f3stico sem seu consentimento. E quase metade dos ouvidos (46,1%) desconfiam que seu estado sorol\u00f3gico n\u00e3o \u00e9 mantido em sigilo nos servi\u00e7os de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Para J\u00f4 Meneses, coordenadora de Educa\u00e7\u00e3o e Assist\u00eancia da ONG Gestos, chama aten\u00e7\u00e3o, sobretudo, o fato de ainda existir estigma e preconceito nos servi\u00e7os de sa\u00fade:\u00a0\u201cA gente j\u00e1 sabe que as pessoas que vivem com HIV, que tomam sua medica\u00e7\u00e3o corretamente, que fazem seu tratamento, elas n\u00e3o transmite para outras pessoas, elas est\u00e3o indetect\u00e1veis e a transmiss\u00e3o \u00e9 zero. E nem isso tem nos ajudado, ent\u00e3o precisamos massificar os dados com rela\u00e7\u00e3o a estigma, massificar outras informa\u00e7\u00f5es que mostram que n\u00e3o se justifica mais [o preconceito].\u201d<\/p>\n<p>Ao tornar ainda mais penosa a experi\u00eancia de se viver com HIV no Brasil, o preconceito afeta a sa\u00fade mental dessa popula\u00e7\u00e3o. Dentre os entrevistados, 29,1% demonstraram sintomas de depress\u00e3o e 41,2% relataram sintomas de ansiedade relacionados ao estigma.<\/p>\n<p>A maior parte das pessoas reportou n\u00e3o ter experi\u00eancias boas ao informar que se vive com HIV para pessoas que n\u00e3o fossem pr\u00f3ximas a elas (55,4%). Nesse sentido, a Lei Federal n\u00ba 14.289, de 2022, garante o sigilo sobre a condi\u00e7\u00e3o de pessoas vivendo com HIV, hepatites cr\u00f4nicas, hansen\u00edase e tuberculose. Mesmo assim, parte dos entrevistos relata que a comunica\u00e7\u00e3o de que se vive com HIV foi feita sem o seu consentimento para grupos que n\u00e3o s\u00e3o de seus c\u00edrculos \u00edntimos, como vizinhan\u00e7as, colegas de trabalho e empregadores, professores e colegas de aula, lideran\u00e7as religiosas e atrav\u00e9s de redes sociais.<\/p>\n<h2>Efeitos da crise clim\u00e1tica e da pandemia de Covid-19<\/h2>\n<p>A edi\u00e7\u00e3o 2025 do levantamento no Brasil incluiu pela primeira vez dados sobre os efeitos das crises clim\u00e1ticas e da pandemia da Covid-19.<\/p>\n<p>Entre as pessoas vivendo com HIV no pa\u00eds, ap\u00f3s eventos clim\u00e1ticos extremos, 82,1% ainda n\u00e3o haviam recuperado sua renda familiar, 20,5% enfrentaram dificuldades para obter medicamentos e 27,3% tiveram a consulta m\u00e9dica para acompanhamento do HIV cancelada ao menos 1 vez.<\/p>\n<p>A pesquisa tamb\u00e9m investigou o impacto da pandemia de Covid-19 na vida das pessoas entrevistadas, bem como no acesso a servi\u00e7os de cuidado, relacionados ou n\u00e3o ao HIV.<\/p>\n<p>Dentre as pessoas que vivem com HIV, 47,2% receberam tamb\u00e9m o diagn\u00f3stico positivo para Covid-19. Dentre esse subgrupo, 76,1% afirmam ter recebido atendimento de sa\u00fade adequado, enquanto 23,9% relataram o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>A maioria das pessoas entrevistadas recebeu uma quantidade de medicamentos do tratamento do HIV para 3 meses ou mais (79,5%) e conseguiu retirar seus medicamentos sem dificuldade. Apesar disso, 13,6% das pessoas enfrentaram dificuldades, e 2,9% n\u00e3o conseguiram retirar seus medicamentos. Al\u00e9m disso, 6,1% das pessoas entrevistadas receberam medicamentos apenas para 1 m\u00eas ou menos. E 24% afirmaram que algum servi\u00e7o de sa\u00fade foi remarcado ou cancelado devido \u00e0 pandemia de Covid-19.<\/p>\n<h2>Situa\u00e7\u00e3o no resto do mundo<\/h2>\n<p>De acordo com o UNAIDS Brasil, n\u00e3o h\u00e1 uma lista oficial \u00fanica que mostra o ranqueamento de pa\u00edses em rela\u00e7\u00e3o ao \u00edndice de estigma, uma vez que, embora a metodologia seja \u00fanica, ela sofre altera\u00e7\u00f5es que se adequam a realidade de cada pa\u00eds.<\/p>\n<p>Mas a partir de uma compila\u00e7\u00e3o de dados globais, a entidade elabora um ranking de pa\u00edses por n\u00edvel de estigma, sendo os melhores colocados aqueles com menos estigma e discrimina\u00e7\u00e3o. Nesta classifica\u00e7\u00e3o, o Brasil aparece em quarto lugar, atr\u00e1s de Canad\u00e1, Portugal e \u00c1frica do Sul.<\/p>\n<p>Confira o Ranking Global de Estigma e Discrimina\u00e7\u00e3o UNAIDS:<\/p>\n<ol>\n<li>Canad\u00e1 (Acesso universal a tratamento e criminaliza\u00e7\u00e3o da discrimina\u00e7\u00e3o)<\/li>\n<li>Portugal (Redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica do estigma ap\u00f3s descriminaliza\u00e7\u00e3o de drogas e foco em sa\u00fade p\u00fablica)<\/li>\n<li>\u00c1frica do Sul (Melhorou significativamente, mas ainda enfrenta desafios em \u00e1reas rurais)<\/li>\n<li>Brasil (Pol\u00edticas avan\u00e7adas, mas desigualdades regionais e viol\u00eancia contra popula\u00e7\u00f5es-chave)<\/li>\n<li>Tail\u00e2ndia (Lideran\u00e7a na regi\u00e3o asi\u00e1tica, mas discrimina\u00e7\u00e3o no local de trabalho ainda ocorre)<\/li>\n<li>M\u00e9xico (Avan\u00e7os legais, mas viol\u00eancia contra grupos vulner\u00e1veis (como homens gays e trans)<\/li>\n<li>\u00cdndia (Estigma familiar e no emprego, especialmente contra mulheres)<\/li>\n<li>Qu\u00eania (Melhorias recentes, mas altos n\u00edveis de estigma religioso)<\/li>\n<li>R\u00fassia (Pol\u00edticas repressivas contra LGBT+ e falta de programas de redu\u00e7\u00e3o de danos)<\/li>\n<li>Nig\u00e9ria (Criminaliza\u00e7\u00e3o da homossexualidade e altos n\u00edveis de exclus\u00e3o social)<\/li>\n<\/ol>\n<p>Os crit\u00e9rios usados para o ranqueamento foram leis e pol\u00edticas de pa\u00edses que criminalizam transmiss\u00e3o de HIV ou grupos-chave, pois estes tendem a ter piores rankings; acesso a sa\u00fade, uma vez que a discrimina\u00e7\u00e3o em unidades de sa\u00fade piora o \u00edndice; o estigma social, pois dentro deste crit\u00e9rio h\u00e1 relatos de exclus\u00e3o familiar, perda de emprego ou viol\u00eancia (muitas vezes institucionalizada); e o autoestigma da pessoa vivendo com HIV por estar ou ter sido infectada.<\/p>\n<p>Em 2021, os Estados-membros das Na\u00e7\u00f5es Unidas adotaram um conjunto de metas ambiciosas como parte da Declara\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica aprovada na Reuni\u00e3o de Alto N\u00edvel da Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre AIDS, entre elas a meta 95-95-95: que 95% das pessoas que vivem com HIV conhe\u00e7am seu diagn\u00f3stico; que 95% das pessoas que sabem que vivem com HIV estejam em tratamento antirretroviral; que 95% das pessoas em tratamento estejam com a carga viral suprimida.<\/p>\n<p>Em 2024, o Brasil alcan\u00e7ou 96-82-95, duas das tr\u00eas metas globais para elimina\u00e7\u00e3o da AIDS como amea\u00e7a \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica. A meta que ainda n\u00e3o foi alcan\u00e7ada, de ades\u00e3o, est\u00e1 diretamente relacionada ao enfrentamento do estigma e da discrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cVimos no index agora que 60% da popula\u00e7\u00e3o trans tem medo de procurar os servi\u00e7os de sa\u00fade pelo estigma. Estamos muito pr\u00f3ximos, hoje, de eliminar o HIV como amea\u00e7a \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica, que \u00e9 a meta 95-95-95 do UNAIDS, mas estamos muito longe de atingir o segundo 95 [95% dos diagnosticados em tratamento]. N\u00e3o buscam por qu\u00ea? \u00c9 de gra\u00e7a, s\u00e3o bem recebidas, s\u00e3o bem acolhidas. N\u00e3o buscam porque t\u00eam medo, porque t\u00eam vergonha da situa\u00e7\u00e3o sorol\u00f3gica. E \u00e9 isso que a gente precisa ter evid\u00eancias para poder criar pol\u00edticas p\u00fablicas que facilitem o acesso\u201d, afirma Barreira.<\/p>\n<p>O representante do minist\u00e9rio da Sa\u00fade tamb\u00e9m reconhece a necessidade de pol\u00edticas p\u00fablicas para aumentar o acesso das ferramentas biom\u00e9dicas, como Prep (Profilaxia Pr\u00e9-Exposi\u00e7\u00e3o) e PEP (Profilaxia P\u00f3s-Exposi\u00e7\u00e3o). No caso da Prep, oferecendo a medica\u00e7\u00e3o por canais alternativos \u00e0s unidades de sa\u00fade, por exemplo, em m\u00e1quinas dispensadoras, ou por meio de organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil que atendam os grupos mais vulner\u00e1veis.<\/p>\n<blockquote data-secret=\"Fw7TcUN8xJ\">\n<p>Brasil reduz mortalidade por Aids, mas registra alta nos casos de HIV<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Brasil, 52,9% das pessoas que vivem com HIV j\u00e1 sofreram algum tipo de discrimina\u00e7\u00e3o por conta da condi\u00e7\u00e3o sorol\u00f3gica. \u00c9 o&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":51,"featured_media":16151,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_lmt_disableupdate":"","_lmt_disable":"","footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-16150","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-saude"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/csimaster.com\/noticia2025\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16150","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/csimaster.com\/noticia2025\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/csimaster.com\/noticia2025\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/csimaster.com\/noticia2025\/wp-json\/wp\/v2\/users\/51"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/csimaster.com\/noticia2025\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16150"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/csimaster.com\/noticia2025\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16150\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/csimaster.com\/noticia2025\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16151"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/csimaster.com\/noticia2025\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16150"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/csimaster.com\/noticia2025\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16150"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/csimaster.com\/noticia2025\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16150"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}