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Espanha ganha a Copa do Mundo. E o futebol deve-lhe gratidão

por Augusto Mafuz
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Não adotei a proposta da rivalidade de que todo o brasileiro teria que torcer contra os hermanos. E há uma lógica com base em fatos: se já confessei o meu desinteresse pela seleção brasileira por ter perdido a sua identidade como valor institucional ao ser cooptada por cartolas e agentes; se a CBF paga 1 milhão de euros por mês a um treinador que é contra a posse de bola; e, que a rivalidade é a proteção do sentimento por um valor puro e intocável, não seria racional exaurir-se na frente da televisão para a satisfação do subconsciente e do nada.

No entanto, fiquei feliz que a Espanha ganhou a Copa do Mundo 2026. Não sou daqueles que vincula a opinião à estatística, por ser o futebol imprevisível. Mas, às vezes, os números são inevitáveis para explicar a solução de um jogo.

Quando a Argentina chutou a sua única bola ao gol, por Simeone, já era o final da prorrogação. E a Espanha já tinha chutado 22 vezes, só não goleando pelo grande jogo do goleiro Dibu Martínez. A vitória por 1 a 0 com o gol de Ferran Torres, aos 40 segundos da etapa final da prorrogação, pode parecer uma vitória simples por causa do placar. Mas o seu significado foi o de uma goleada.

O legado deixado por John Cruyff ao futebol é tão nobre que, passados 10 anos de sua morte, continua mostrando que o futebol pode ser simples, desde que atenda alguns princípios.

O futebol passa a ter uma dívida de gratidão com Espanha. Derrubando o dogma do individualismo, provou que o poder coletivo, quando atende os princípios da posse de bola e da ocupação de espaços, tudo no seu devido tempo, torna-se insuperável. Pode um dia perder, como a Espanha perdeu desde 2014. Mas um dia volta ganhar, como já ganhou a Euro e agora a Copa do Mundo.

Esse sistema quando é compartilhado e executado, entre outros, como Cubarsí e Laporte atrás, Rodri, Olmo e Pedri no meio, e Lamine Yamal, Nico Williams e Ferran Torres no ataque, faz um time sacrificar-se pela disciplina, mas vencedor sem perder a beleza. É tão fantástico que esse seu sistema de jogo absorve até o futebol de um gênio, como ocorreu com Messi. Sem marcação individual, Messi foi engolido pelo esquema espanhol.

A Argentina não teria deixado nenhum bom exemplo como campeã. Ganhar na superação física, que às vezes confunde-se com o jogo bruto e violento, e até sujo (Paredes e Enzo Fernández), e na dependência de um gênio como Messi, que é uma exceção no futebol, como foram Pelé, Garrincha e Maradona, não deixaria nenhuma lição.

Em uma final de Copa do Mundo, só o Brasil em 1970, no México, controlou a Itália com a autoridade que a Espanha controlou a Argentina, em Nova Jersey. A forma como a conquista da Espanha foi implementada, devolveu a autoestima para quem gosta de futebol.

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Um dos comentaristas esportivos mais tradicionais de Curitiba, conhecido por sua cobertura do Athletico, Coritiba e outros times da capital. Nascido em Guarapuava em 11 de maio de 1949, Mafuz é figura central no jornalismo esportivo local por décadas por causa de seu texto apurado e opinões contundentes.

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